2006: Marcos da História e Acontecimentos Fora da Rotina

Dezembro 28, 2006 às 5:26 pm | Na categoria Ponto de Vista | 10 Comentários

Silvino Évora
Jornalista
jornalmedia@hotmail.com

 

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É normal, quando termina um ano, olharmos para trás para vermos o que correu bem e o que correu mal, o que permaneceu e o que mudou. Confesso ser meu hábito fazer este exercício mental, não olhando só para a esfera da minha vida privada, mas abrangendo uma escala que, por vezes, toma uma dimensão global. Entretanto, este ano resolvi fazer este exercício, através da palavra, tentando fazer com que a locução recupere alguns momentos importantes por que atravessamos e certos episódios que marcaram a nossa vivência, mesmo que não tenham tocado a todos nós, da mesma forma.
Entretanto, nenhuma análise do curso de um ano civil pode ser honesta se não for levada em consideração, episódios a montante, que têm vindo a marcar a história da humanidade. Lembro-me, por exemplo, dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 que, ao tirar véu à fragilidade da maior potência do mundo da actualidade, acentuou as rivalidades entre o mundo ocidental (e ocidentalizado) e o ‘outro’. A palavra ‘outro’ seria uma expressão inócua, se não encerrasse um conjunto de contradições à forma globalizada, para não dizer ‘americanizada’, de viver, em que os valores da vida e da morte são avaliados com bitolas diferentes.
Tendo em conta a geopolítica global, alguns acontecimentos nivelam o nosso ângulo de visão, como, por exemplo, a primeira vez que Fidel Castro deixou a cadeira do poder, ainda que seja para o seu irmão. No pouco tempo que Raul Castro tem estado no comando do país, tem dado sinais de diálogo com a comunidade internacional, mais concretamente com os EUA, o que, a consolidar, será uma válvula de escape para o marasmo económico em que Cuba se vê envolvida, ao longo de décadas, decapitando toda a sua economia e conduzindo o país à beira de um precipício. No Iraque, o ano 2006 serviu para mostrar aos Estados Unidos a importância da palavra socialização, em vez de sobrevalorizar da militarização. Ganharam a batalha militar, quando tinham os aviões no ar a destruir aquilo que chamavam de alvos estratégicos e que mais tarde revelou-se na destruição de bibliotecas raras, algumas preciosidades da História e a própria população inocente, que o único pecado que tinha cometido era respirar o oxigénio que Deus pôs no ar. Por outro lado, o Líbano acordou, em 2006, numa realidade que desejou ser pesadelo: o recuo de 20 anos atrás em termos de desenvolvimento económico, devido à ‘invasão israelita’, apadrinhada pela maior potência da actualidade. Portanto, o ano 2006 não trouxe nada que abonasse o Médio Oriente, que continua mergulhado num mar de conflito.
Em Cabo Verde, as coisas continuaram quase na mesma. O acontecimento mais importante é o embate eleitoral do princípio do ano, que recolocou José Maria Neves no poder, enquanto Primeiro-Ministro da nossa República, reforçando a sua maioria absoluta. Pedro Pires também assegurou o seu lugar de Presidente da República, por mais cinco anos. Devemos lembrar ainda o ‘ressurgimento’ da UCID, que conseguiu garantir dois dos 72 lugares na Assembleia Nacional, ocupando um lugar confortável (tendo em conta a dimensão do partido) de terceira maior força política do país. Mas, as eleições de 2006 deixaram-nos alguns sinais preocupantes. Trata-se de algo semelhante ao chamado ‘fenómeno banho’, em São Tomé e Príncipe, mas com a sua agravante. É que, no caso do ‘banho são-tomense’, regista-se a compra de votos, sendo que as pessoas mais pobres acabam por hipotecar a sua liberdade de pensamento e de escolha, ‘vendendo a sua consciência’. No caso de Cabo Verde, parece ser muito mais uma ‘banhada’ do que propriamente um ‘banho’. Para quem é cabo-verdiano, acho que não terá grandes dificuldades em perceber o que é uma ‘banhada’. Mas, para quem não sabe, passo a explicar: em Tarrafal, pelo menos há uns anos atrás, uma ‘grande banhada’ era um grande roubo. Sim porque, tanto as eleições presidenciais como as legislativas acabaram na barra dos tribunais por causa da possível introdução de votos falsos nas urnas e nomes duplicados na base de dados da Direcção Geral da Administração Eleitoral. O caso é sério, em todas as formas de que pode revestir-se: caso tenha havido fraude eleitoral, deve-se tomar todas as medidas para que não caminhemos para uma espécie de ‘democracia fantoche’, coberta por camadas de ditadura; se for tudo inventado, creio que os ‘inventores’ devem ser chamados à razão para prestarem contas públicas, uma vez que a difamação deve ser dirimida de entre as formas de luta política. Devemos recordar ainda que o ano 2006 foi a altura em que a barragem de Poilão recebeu a sua primeira bênção divina, proporcionando aos cabo-verdianos uma visão única. Um outro passo de grande importância para o crescimento e a afirmação do nosso país, foi dado, neste ano que vai terminar: trata-se da criação efectiva da Universidade de Cabo Verde, a primeira Universidade pública deste nosso pequeno país insular. A par disso, destacamos ainda a elevação de um cabo-verdiano ao cargo de Reitor da primeira Universidade do país (Jorge Sousa Brito: Universidade Jean Piaget de Cabo Verde). Estes acontecimentos são muito importantes, não só para a consolidação do ensino superior e da investigação científica no país, como também para a interacção dos cabo-verdianos com o próprio sistema de ensino superior que está a ser arquitectado no país. O ano 2006, por outro lado, acaba por ser o ponto de viragem no domínio da comunicação social cabo-verdiana. São vários os motivos. As parabólicas foram espalhadas por todas as aldeias, permitindo uma retransmissão dos sinais de canais internacionais que se traduziram numa violação grosseira aos direitos internacionais de sinais televisivos. Facilmente, houve quem ajeitasse as emissões internacionais a uma espécie de canais privados de televisão, começando a surgir televisões ‘quase-piratas’, que tiraram o pouco brilho que a TCV tinha nos vários locais onde propagavam os seus sinais. Confrontado com a falta de licença para a transmissão privada, o Governo sentiu-se obrigado a lançar um concurso público para a atribuição de licenças, no qual se apresentaram seis concorrentes, todos com condições reais para montar uma verdadeira estação televisiva.
Por outro lado, os próprios profissionais da comunicação social, inconformados com a qualidade de serviço que andam a prestar aos cabo-verdianos, resolveram sentar-se à mesma mesa para analisar uma possível mudança. Mais vale tarde do que nunca. A agregação dos jornalistas cabo-verdianos à Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), passando os profissionais cabo-verdianos a ter direito à carteira internacional de jornalista, também marca o ano 2006. Por outro lado, destacamos ainda a instituição da Comissão de Carteira Profissional no país e algumas outras mudanças, que, a continuar, podem vir a melhorar a comunicação social, em Cabo Verde.

Partindo do global, tínhamos que chegar à nossa aldeia. Em 2006, Tarrafal conheceu episódios que podemos considerar de positivos e outros que são claramente negativos. Em primeiro lugar, a assinalação dos 70 Anos da Abertura do Campo de Concentração do Tarrafal. Trata-se de um acontecimento de grande importância, não só para a História local, como para a História cabo-verdiana e portuguesa. Esta assinalação aconteceu quase na mesma altura em que o Governo decidiu declarar o Campo de Concentração como um património nacional. É um reconhecimento mais do que merecido, se levarmos em consideração a importância desse pedaço de Tarrafal para a compreensão de forma como, ao longo de um certo período de tempo, o homem se relacionava com os seus semelhantes.
A Câmara Municipal conseguiu arrecadar cerca de 150 milhões de escudos com a venda da sua percentagem de acções na Sociedade Cabo-verdiana de Tabacos, planeando usar o montante na requalificação do Concelho, incremento da educação e apoio social aos menos favorecidos. Uma óptima ideia, uma vez que para além de haver muitas famílias que passam por momentos de aperto, também é necessário dar uma nova cara à nossa Vila, que se quer uma grande aldeia turística na ponta norte da Ilha de Santiago. Um filho de Tarrafal foi nomeado Embaixador de Cabo Verde em Portugal, abrindo espaço para que um outro filho da terra chegasse ao Parlamento nacional; dois filhos de Tarrafal concluíram o nível de Mestrado, alcançando a classificação máxima para este grau académico; o grupo de batuque Pó di Terra granjeou aplausos nos palcos do mundo, depois de ter lançado o seu primeiro CD, que deu uma nova roupagem ao batuque tradicional de Cabo Verde.
Por outro lado, não podemos esquecer do acidente de viação que quase reproduziu o desastre de 2005, não fosse mais catastrófico do que o mesmo. Se, em 2005, o acidente mais brutal que houve levou-nos cinco jovens, o de 2006 ceifou vida a nove pessoas. Um acontecimento que nos marca a todos, uma vez que um desastre destes num Concelho pequeno como o nosso toca-nos a todos. Ainda, não deixaremos de destacar o esforço que a equipa do TarrafalNaZona tem feito para viabilizar este projecto, que visa fornecer aos tarrafalenses e aos amantes do Tarrafal uma informação actual sobre o Concelho, a diáspora e o país, não fechando os olhos ao mundo em que vivemos. Normalmente, quando um ano termina, olhamos para trás para vermos o que correu bem e o que correu mal, o que permaneceu e o que mudou. E este ano resolvemos trazer este retrato, que é um recorte dos muitos acontecimentos que romperam as nossas rotinas, marcaram a nossa história e alteraram o nosso dia-a-dia.
A todos, desejo que o próximo ano seja 2007 vezes melhor do que este.  

 

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10 Comentários »

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  1. Parabéns pelo artigo !

    E aqui ficam também, os meus votos de um Excelente 2007, para todos, e em especial, para o nosso Mestre Silvino Évora !

    ITC

  2. :) Um dia gostaria de ser capaz de expressar-me desta forma! Ai… que “IMBEIJA”!
    BOAS ENTRADAS EM 2007!

  3. O que posso dizer, normalmente fico sem plavaras quando as palavras não chegam para expressar e congratular as pessoas que têm o “dom” ( estranho estar entre parentesis, mas é porque não ache que seja um dom mas sim um esforço para ser bom nalguma coisa, somente por isso). Um grande retrato de 2006, no entanto, falta balanço de um operação fantasma ao caboverdianos, falo da operação da Nato “Steadfast Jaguar 2006″. Os dias que a Cabo Verde viveu á margem do desenvolvimento devido á falta de luz, á polémica sobre a a Electra e a sua congénere poruguesa EDP, que levou o Ministro da Economia de Portugal á terra banhado pelo Atlântico. Ás dezenas de assaltos e de ataques que assolaram a nossa capital e que vez com que as pessoas tivessem medo de sair á rua…
    Um ano positivo, garnde Universidade Pública, que sejas bemvinda (sem sarcasmo), oxalá nos valhas de alguma coisa…
    Boas entradas, para mim, vejo mais ano cinzento e torbulento!

  4. Muito obrigado a todos que comentaram este post, deixando aqui os votos de um excelente 2007. ITC, que eu te desejo um óptimo 2007, nem devo dizer. Acho que já sabes. Que o ano seja XXL :-)
    Rómulo, agradeço as suas palavras. Apareça sempre que temos gosto de te ver por cá.
    Ivan: é verdade. Tens razão em toda a linha. Na verdade, quando analisamos uma situação, trazemos sempre ‘pedaços da realidade’. A realidade tal como é, não concebemo-la. Mas, não deixa de ser verdade que há vários factos que apontaste que deviam ser apreciados. Mas, no momento, não vieram à mente. Depois do texto estar publicado, lelmbrei-me de outras coisas importantes que mereciam ser registados: a ‘saga’ dos africanos que morrem na procura de um salto para dentro da Europa, por exemplo. Mas, enfim: é uma visão que sempre traz uma parte da realidade.
    Abraços,
    Silvino Évora

  5. Ha pois… Iniciou-se um novo nao mas eu deixei de acreditar na Humanidade. Eu acriditava que o Homem era um homem bom, que apesar de tudo o seu coração não era de pedra, mas pelos vistos devo-me ter enganado. Não quere que a minha reflecção feita agora seja tomada como para todas as pessoas (mas as excepções são poucas). Como que nós podemos condenar quem mata quando, pra nós a justiça, é matar quem já matou. Não pou adepto da pena de morte. Talvez esta minha opinião seja devido ao fecto de nunca ter sofrido na “pele” o assasinato de alguém conhecido ou próximo. A morte do ex-Ditador Saddam Hussein foi das coisas mais tristes que já vi. As última palavras…. um apelo á humanidade.

    Não tenho nada a acrescentar.

  6. Mt Bom

  7. nossa muito bom msm[8)]

  8. olha me desculpa naummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm entendiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii nadddddddddddddaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

  9. Devias aprender a ler um bocadinho, sua burraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

  10. este site é uma merda caralho>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>


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