Geração Claridade: O neo-realismo cabo-verdiano em debate

Abril 27, 2007 às 11:45 am | Publicado em Comunicação e Sociedade | 3 comentários

Inicia-se, hoje, na Cidade da Praia um Seminário Internacional sobre a Geração Claridade, organizado pelo Governo que quer assinalar o centenário daquele que foi um dos ‘mostros’ da literatura das ilhas – a Claridade. A Geração Claridade reuniu, a partir de 1936 em torno da revista com o mesmo nome, um conjunto de escritores que seguiram as pegadas dos neo-realistas portugueses, assumindo, nas ilhas, a causa do povo cabo-verdiano, lutando contra o colonialismo e empurrando os portugueses para a Europa. Muitos cabo-verdianos pegaram na pena e desenharam caligrafias que hoje constituem partes do mosaico cultural cabo-verdiano que integra a literatura neo-realista do arquipélago, fundamentada na oposição dos colonizadores aos colonizados.

Vários estudiosos da literatura estarão presentes na Cidade da Praia para debaterem a Geração Claridade, entre eles, Pires Laranjeira, Elsa Rodrigues dos Santos, Luís Silva, Alberto Carvalho e Ana Mafalda Leite (de Portugal) e Simone Caputo Gomes (do Brasil).

fotoMas, como era de esperar, os cabo-verdianos não passam alheios a este debate e já começa a surgir algumas interrogações. Na Assembleia Nacional, o deputado do MpD Humberto Cardoso, referiu-se ao Baltasar Lopes como ‘o mais ilustre cabo-verdiano de todos’. Jorge Carlos Fonseca, Presidente dofoto Instituto Superior de Ciências Sociais e Jurídicas, advogado e constitucionalista, soma uma série de perguntas às afirmações do deputado ventoinha: “Porquê? Mais ilustre do que Amílcar Cabral, Eugénio Tavares, Cesária Évora, porquê? Nestas coisas de avaliação de percursos globais de pessoas, de classificações e hierarquia de personalidades, é sempre difícil determinar critérios racionais. Será a obra, sua dimensão e qualidade? O impacto dela e da própria pessoa na vida dos outros ou da comunidade? Constituirá decisivo argumento a medição do grau de genialidade ou a extensão, a diversidade e a profundidade da intervenção cívica, científica ou cultural? A marca, o rasgo, enfim, o rasto que se deixa, o espanto que causa a passagem pela terra, com os seus dons, virtudes, inteligência ou inovação?” [Ler Mais].

O debate já está lançado e, pelos vistos, começou com muito vigor. Espero, nestes dias, ler mais coisas sobre os senhores que reflectem a literatura cabo-verdiana e aprender um bocadinho mais sobre a Geração Claridade.
 

 


PROGRAMA

Dia 27 (Sexta-feira):

• 9h00 – Cerimónia de Abertura Solene. Local: Sala de Conferências da Biblioteca Nacional. Discursos: Ministro da Cultura, Manuel Veiga, presidente da Associação de Escritores de Cabo Verde, Corsino Fortes, e Presidente da República, Pedro Pires. • 10h30 – Inauguração da exposição de artes plásticas intitulada “Saudação à Claridade” e da venda de livros e discos cabo-verdianos, ambos na BN. • 11h00 – Painel dos Fundadores: Baltasar Lopes, João Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes. • 12h30 – Final dos Trabalhos. • 13h00 – Almoço Livre. • 15h00 – Reinicio dos trabalhos. • 17h00 – Debate sobre o 1º painel. • 19h30 – Final dos trabalhos • 20h00 – Inauguração do Espaço “Memória”, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, com os nomes dos homenageados. • 20h30 – Jantar típico no Miradouro do PC • 21h30 – Noite de música e poesia no PC.

Dia 28 (Sábado):

• 9h00 – Painel dos Colaboradores (e de destacadas personalidades do mundo da cultura da mesma geração). • 12h30 – Final dos Trabalhos. • 13h00 – Almoço Livre • 15h00 – Debate sobre o 2º painel. • 17h00 – Final dos trabalhos. • 17h30 – Apresentação do livro “Claridade na Palavra dos Fundadores”. • 18h30 – Discurso de encerramento pelo Primeiro Ministro, José Maria Neves.

Dia 29 (Domingo):

• 9h00 – Visita à Cidade da Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha) e ao Núcleo do Museu Etnográfico, seguido de beberete com produtos da terra, na mesma localidade. • 13h00 – Almoço Livre. • 19h30 – Jantar de encerramento no Tabanca Mar. • 21h30 – Noite de Gala no Auditório Nacional Jorge Barbosa.

Os oradores e as suas temáticas

Destaques

Pires Laranjeira (Portugal)/Manuel Lopes

A partir das referências e alusões à raça, à influência da África continental na cultura cabo-verdiana e à relação da classe e da raça com a formação e evolução económica do arquipélago, tanto em textos ensaísticos quanto literários, Pires Laranjeira procura mostrar que a “questão negra” teve um tratamento contínuo, ao contrário do que, por vezes, pode ser pensado, o que leva à conclusão de que foi uma questão não episódica e insignificante e que pressupôs uma vontade deliberada e consciente de equacionar o problema.

Elsa Rodrigues Santos (Portugal)/Jorge Barbosa

Numa análise à obra poética de Jorge Barbosa, constituída pelos três livros que publicou em vida (Arquipélago em 35, Ambiente em 41 e Caderno de um Ilhéu (56) e os três publicados postumamente na sua Obra Poética (Expectativa, Romance dos Pescadores e Outros Poemas), Elsa Rodrigues Santos expõe a consonância da obra de Jorge Barbosa com o povo cabo-verdiano, mostrando a sua consciência social e política.

Daniel Pereira (Brasil)/Baltasar Lopes

Gilberto Freyre publicou, em 1953, o livro Aventura e Rotina, cujo subtítulo era, Sugestões de uma viagem à procura das constantes portuguesas de carácter e acção. As observações sobre Cabo Verde contidas nesse texto suscitaram contundentes críticas por parte de uma das mais proeminentes figuras do Movimento Claridoso, Baltasar Lopes da Silva. É a propósito destas observações e reacções, que Daniel Pereira disserta, tentando dissecar, seja as conclusões de Gilberto Freyre, como analisando e criticando a reacção de Baltasar Lopes.

Filínto Elísio Correia e Silva (Cabo Verde)/Jaime de Figueiredo

Esta comunicação é sobre Jaime de Figueiredo, mentor e promotor do Grupo Atlanta, e proponente de uma revista literária (de mesmo nome), que não chegou a ser publicada, mas que está no cerne das tertúlias literárias nas ilhas, e que não tomou parte na fundação da revista “Claridade” por claras divergências de orientação editorial e estética.

Isabel Lobo (Cabo Verde)/A. Aurélio Gonçalves

Isabel Lobo apresenta a relação do texto ficcional de António Aurélio Gonçalves com o cenário mindelense, que opera a um nível metafórico construindo uma significação específica que justifica que as histórias não sejam só histórias, que justifica que as histórias aurelianas sejam mais um dos argumentos do discurso mais vasto sustentado pela Claridade.

António Germano Lima (Cabo Verde)/B. Léza

Reconstituir a história cabo-verdiana com base na pluralidade das suas fontes é uma forma de fincar os pés na terra, projecto esse caro aos Claridosos. Assim, António Germano Lima aborda a contribuição musical de B. Léza como fonte e referência da reconstituição da história sócio-cultural cabo-verdiana, desde que cruzada com outras fontes, nomeadamente com a escrita.

Jorge Miranda Alfama (Cabo Verde)/ Claridade e Artes Plásticas

Será que o movimento claridoso se confinou à expressão literária?, pergunta Jorge Miranda Alfama. E responde que “não” porque no último número da revista “Claridade” há linóleos de Abílio Duarte e Rogério Leitão que prosseguem e produzem aqueles pressupostos. Se outras razões não o justificassem, as suas representações pictóricas expressam o viver, o sentir e o amargar do homem.

Mário Lúcio Sousa (Cabo verde)/Música na Claridade

Mário Lúcio Sousa disserta sobre a contribuição da Claridade para a música cabo-verdiana, nos domínios da composição e da interpretação. Qual foi o papel dessa nova música na emancipação da Nação?Que anónimos compositores e músicos, esquecidos e não recenseados pelo Movimento ou pelos seus estudiosos, compreenderam e transmitiram a revolução estética? Que legado deixou a nova estética na conformação da música pró e pós independência? São as questões que Mário Lúcio Sousa levanta.

Os outros oradores:

• José Luís H. Almada (Cabo Verde)/Jorge Barbosa • Inocência Mata (Portugal) – Jorge Barbosa • António Leão Correia e Silva (Cabo Verde) – António Carreira • Arnaldo França (Cabo Verde) – Aurélio Gonçalves • Gabriel Fernandes (Cabo Verde) – Claridade • Luís Silva (França) – Baltasar Lopes da Silva • José Maria Semedo (Cabo Verde) – Júlio Monteiro • Mário Fonseca (Cabo Verde) – Pedro Corsino de Azevedo • Corsino Fortes (Cabo Verde) • Fátima Fernandes (Cabo Verde) • António Brito Neves (Portugal) • Joaquim Arena (Portugal) • José Luís Tavares (Portugal) • Ana Mafalda Leite (Portugal) • Maria Armandina Maia da Cruz (Portugal) • Simone Caputo (Brasil) • Maria Luísa Baptista (Portugal) • Eutrópio Lima da Cruz (Cabo Verde) • Moacyr Rodrigues (Cabo Verde) • Dulce Almada Duarte (Cabo Verde) • Alberto Carvalho (Portugal)

Devida vénia ao A Semana On-line e Liberal-Cabo Verde.

Advertisements

3 comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. A coisa mais importante que temos é a nossa cultura pelo que devesmoa preservá-la como se fosse o batimento do nosso coração que que temos que bombear sangue constantemente.
    Escritores como Baltasar Lopes e outros serão sempre recordados por aqueles que amam a sua pátria, pois eles elevaram-nos a um outro nivel intelectual.
    Se não presevar-mos a nossa culrura quem a fará por nós ?

  2. Temos que ser nós a batalharmos pela valorização da nossa cultura. Um abraço

  3. Nino,isso de considerar Baltazar Lopes “o mais ilustre”,faz-me lembrar a polémica que um certo concurso televisivo português recentemente divulgado causou.
    já agora é caso para sabermos quem é “o maior caboverdeano de sempre”.Quem será,quem será?


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: