Propaganda enquanto arma “mortífera” da Democracia

Outubro 30, 2007 às 3:04 pm | Publicado em Comunicação e Sociedade, Ponto de Vista | Deixe um comentário

Por: Carlos Sá Nogueira*

Num passeio pela manhã (29/10/07) à bela cidade dos arcebispos, a Arquidiocese de Braga, a qual aproveito para exortar a todos quantos que por cá passarem o favor de fazerem uma paragem obrigatória, para deleitarem com as diversas maravilhas arquitectónicas, existentes nesta cidade. Chamaria, sobretudo, a atenção para o Jardim de Santa Bárbara e para a medieval do Antigo Paço Arquiepiscopal, um extraordinário sítio para uma êxtase matutina e/ou vespertina.
Página as tantas, por voltas das 10 horas, depois de ter tomado o pequeno-almoço numa das tascas do centro da cidade passei, por uma das mais recheadas e prestigiosas livrarias da urbe – Centésima Página, sita na Avenida Central, para dar uma olhada a alguns acervos bibliográficos que me interessavam. Vasculhando os livros na estante da secção das Ciências da Comunicação, deparei-me com a obra do exímio pensador contemporâneo das Ciências da Comunicação, NOAM CHOMSKY, intitulada A MANIPULAÇÃO DOS MEDIA: Os Efeitos Extraordinários da propaganda – a qual propunha aqui aos caros leitores uma pequena recensão, sobre a problemática do poder da propaganda em democracia.
Ora, o autor, glosando um dos maiores teóricos liberais dos media, Walter Lippmann que era o decano dos jornalistas norte-americanos, que escreveu um ensaio: “Uma Teoria Progressista do Pensamento Liberal democrático” traça o seu pensamento, em torno de duas questões cruciais que mexem com a teoria democrática: “a classe especializada” e “rebanho tolo”. Este último é ‘a opinião pública que não distingue os interesses comuns’ que só podem ser compreendidos e orientados por uma ‘classe especializada’ de ‘homens responsáveis’, suficientemente inteligentes para apreender as coisas. Ou seja, segundo esta teoria, quem está, de facto, em condições de compreender as grandes questões da sociedade é “só um pequeno escol” – a comunidade intelectual. ‘O público em geral deixa-se iludir’.
Esta tese conta com centenas de anos e é um ponto de vista tipicamente leninista. Assemelha-se muitíssimo a concepção leninista segundo a qual uma ‘classe especializada’ toma o poder político, usando as revoluções populares como força que o leve ao poder. Isto porque, nas palavras de Chomsky, as massas estúpidas são orientadas para um futuro que elas sendo demasiadamente estúpidas e incompetentes, não conseguem antever por si próprias, (2003:16). De acordo com o autor a teoria liberal democrática e o marxismo-leninismo estão muito próximos uns do outro nas suas concepções ideológicas. Por isso, acrescenta, que a proximidade entre as duas teorias leva a que as pessoas mudem, constantemente de posição sem qualquer sentido especial à procura onde é que está o verdadeiro sentido do poder.
Para Chomsky que cita Lippmann, este apoiava a sua posição na democracia progressiva. Ou seja, segundo Lippmann, numa democracia que funcione devidamente existem classes de cidadãos. Em primeiro lugar, a classe de cidadãos que tem de desempenhar um papel activo, qualquer que seja, na condução dos assuntos gerais. Esta é a classe especializada. São as pessoas que analisam, executam, tomam decisões e dirigem as coisas da rés pública – no campo político, económico e ideológico. Depois segue-se a ‘massa estúpida’ e sem poder decisório a que Lippmann chama ‘o rebanho tolo’. Temos que nos proteger do ‘tropel e do fragor de um rebanho tolo’, alerta.
Ora bem, na linha do pensamento de Lippmann só existem duas ‘funções’ numa democracia: à classe especializada, aos homens responsáveis, compete a função executiva, o que quer dizer que lhes cabe pensar, planear e perceber quais são os interesses comuns. Depois existe o ‘rebanho tolo’ que também tem uma função em democracia. A sua função, diz Lippmann, é ser ‘espectador’ e não participante activo. Todavia, a sua função é mais do que a de mero espectador. Quando chega o período eleitoral o ‘rebanho estúpido’ é chamado a pronunciar-se sobre quem é que deseja que o represente. Tudo isto porque estamos em democracia e não num Estado Totalitário, considera o autor.
Passado o período das eleições a ‘massa estúpida’ que foi usada para, supostamente, legitimar o poder da ‘classe especializada’ submerge outra vez e se torne espectador da acção, mas não participante. Esta é a realidade de uma democracia dita funcional. É que tudo isto tem uma explicação lógica, assente numa espécie de princípio moral compulsivo. Este moral compulsivo é que as pessoas, a grande massa, são demasiadamente estúpidas para perceberem as coisas. Ao tentarem participar na condução dos seus próprios destinos, vão mesmo causar perturbações. Portanto, seria imoral e inconveniente permitir-lhes que o façam. Para, Lippmann, nestas condições é fundamental que os ‘rebanhos tolos’ sejam domesticados de forma a não enfurecer, vaguear ou destruir coisas.
Face a este estado de coisas Lippmann, defende uma nova revolução na arte da democracia: fabricação do consentimento. Os media, as escolas e a cultura popular têm de ser divididos. À classe política e aos decisores tem de se lhes dar algum sentido tolerável da realidade, embora os ‘rebanhos tolos’ também tenham que inculcar lentamente as suas próprias convicções.
Nos anos 20 e no princípio dos anos 30, Harold Lasswell, o fundador do campo de comunicações moderno e dos cientistas políticos norte-americanos explicou, que “ não devemos vergar-nos a ‘dogmatismos democráticos acerca de os homens serem os melhores juízes dos seus próprios interesses’. “Porque não são”, remata Chomsky, que assevera que nós somos os melhores juízes dos interesses públicos.
Entretanto, o autor alerta-nos ainda para uma importante situação: “naquilo que hoje em dia se chama um Estado totalitário, ou um Estado militar, mantém-se um bom cacete em cima da cabeça das pessoas e se elas saírem da linha dá-lhes com ele. Porém, como vivemos numa sociedade mais livre e mais democrática, esqueceu-se das bastonadas, enquanto arma de correcção e recorreu-se a mais “mortífera” arma da democracia contemporânea: às técnicas de propaganda. É que a lógica é evidente. A propaganda está para uma democracia como a bastonada está para um Estado totalitário. Tudo isto porque, segundo autor, o procedimento é acertado e judicioso porque os interesses comuns ultrapassam o entendimento do ‘rebanho tolo’ (2003:22)

• Jornalista e mestrando em Ciências da Comunicação – especialidade em Informação e Jornalismo, na Universidade do Minho em Portugal

• E-mail: sanogueiraborges@hotmail.com

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