O fim dos ‘falsos profetas’?

Março 3, 2009 às 12:59 pm | Publicado em Ponto de Vista | 2 comentários

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Não posso deixar de dizer que os últimos acontecimentos que tiveram lugar na Guiné-Bissau foram, quanto a mim, de tal forma incómodos, que motivaram a escrita deste artigo. De um dia para outro, um país vê-se despido de duas altas figuras da cúpula do poder: Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e Presidente da República. Ora, se as causas fossem naturais, compreender-se-iam. Se fossem imprevisíveis, com pendor acidental, aceitar-se-iam. Mas, como foram ‘algo’ previsíveis e de natureza premeditada, repudiam-se. Em pleno séc. XXI, quando uma boa parte do mundo sedimenta a sua democracia, consolida os ganhos políticos, democratiza os espaços de informação através da ampliação da esfera tecnológica, cataloga os direitos fundamentais da pessoa humana, institui a força da lei sobre a força das armas, não podemos continuar a aceitar de ânimo leve que vidas humanas sejam transformados em combustíveis para olear a máquina da política.

Como disse no parágrafo anterior, a situação que se registou nos últimos dias na Guiné-Bissau não era completamente previsível, mas também, não era de todo imprevisível. Todos conheciam e conhecem o poder dos militares na Guiné-Bissau; todos tinham e têm noção da ingovernabilidade do Estado bissau-guineense; todos ouviram e se lembram das notícias sobre a narco-colonização do país; todos assistiram e se recordam de juízes, procuradores e outros representantes de instituições cruciais para a estabilidade do país a queixarem-se de perseguições e ameaças, temendo pela sua própria vida; todos registaram e acompanham a morte de vários dirigentes do Estado; todos leram em lugar algum ou através de qualquer meio sabem que a relação entre Nino Vieira e Tagma na Waie eram das piores e que, se algumas vezes mostraram proximidade, foi apenas porque tinham interesses em convergência. Portanto, ninguém poderá dizer que o assassinato de Nino Vieira era uma coisa impensável ou que o ataque que vitimou Tagma na Waie é algo inacreditável. Meio mundo poderia prever que, mais cedo ou mais tarde, alguém teria que desaparecer porque a própria lógica política instalada na Guiné-Bissau determina que dois galos não podem governar por muito tempo o mesmo poleiro. Daí que os conflitos nunca deixaram de acontecer e os golpes de Estado têm assumido protagonismo nas mudanças de Governo na Guiné-Bissau. A disputa pelo poder é uma situação latente na sociedade guineense e quando não se transforma em desentendimentos públicos, traduz-se em pequenas fricções entre partidos e/ou actores políticos em presença.

A Guiné-Bissau não representa apenas um dos casos mais graves, senão também algo sintomático de como a ganância pelo poder tem transformado muitos países da África em repositório da vontade e das ambições das cúpulas do poder. O povo, nestes casos, é transformado em instrumento e as suas ambições e desejos de alcançarem uma vida digna são alimentados apenas com restos que sobram das casas do Poder.

Na análise que podemos fazer da trajectória política no continente, podemos dizer que a expressão mais acintosa da cultura política africana é a opressão. Durante vários séculos, a colonização transformou os africanos no instrumento da concretização dos anseios de uma vida melhor da parte dos europeus. Isso fez com que o continente conhecesse, no decurso do séc. XX, uma prolongada luta, em prol da libertação dos povos, surgindo muitas figuras que ganharam uma notoriedade ímpar, transformando-se em ‘profetas da liberdade’. Nino Vieira foi uma dessas figuras. Ao longo de décadas, instituiu-se na psicologia colectiva da Guiné-Bissau como o símbolo da ambição de auto-determinação de uma nação fragmentada em várias etnias. Apesar da importância incomensurável de Nino Vieira e de muitos combatentes pela libertação dos países africanos, a verdade é que, depois da descolonização, o regime e a postura de muitos desses governantes emergidos da luta pela libertação desprofetizaram muitas das figuras que antes encarnavam a ambição de progressão e desenvolvimento de várias nações. Muitos desses governantes foram traídos pelas suas próprias ambições que, por serem desmedidas, passaram a ignorar os meios para alcançar os seus fins. Começaram a tomar posições contraditórias, violando os direitos fundamentais dos cidadãos dos seus países que, antes, lhe tinham prometido que iriam recuperá-los da ambição expansionista europeia, devolvendo-os aos seus titulares. No entanto, as coisas não aconteceram nesse sentido.

Em muitos países africanos, ainda hoje, a postura dos governantes vão no sentido de camuflar as verdades, recusando que os cidadãos tenham elementos comparáveis, que os permitem analisar os factos da vida quotidiana e tomar as suas decisões em plena consciência dos seus actos. Portanto, essa atitude vai contra um dos mais nobres ensinamentos da Teoria da Libertação, confinado à passagem bíblica ‘conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’ (João 18:38), já que ela – a verdade – é factor da libertação. O certo é que, em muitos países africanos, os governantes não promovem esse conhecimento da verdade, na medida em que a verdade permitiria o povo se libertar das suas próprias amarras. Daí a necessidade de moralizar os actos da governação, saindo do caminho de domínio psicológico dos indivíduos, condicionando as suas acções às ambições e interesses instalados. A luta aqui não é só dos governantes contra os seus caprichos, mas também dos governados contra os desmandos, de forma a que a lei se imponha e as armas se calem. O Iluminismo permitiu ao homem se libertar do medo e dos fantasmas, pelo que, em pleno século XXI, o homem não pode continuar dominado pela sombra da morte e das armas, pelos fantasmas do poder e pelo medo da verdade. A cultura da auto-responsabilidade deve fazer com que cada um se responsabilize pelos seus actos, ainda mais, quando os seus erros podem provocar erros na acção alheia. Daí que, cada vez mais, faz sentido deixar que a verdade liberte a mente humana para que os actos de cada um sejam consentâneos com as necessidades da vida em comunidade, o respeito mútuo e a defesa dos bens comuns. Já dizia Mateus (cap. XXIII: 13-15): “ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o Reino dos Céus; e nem vós entrais, nem deixais entrar os que estão entrando”.
Desta forma, terminamos, perguntando se a quebra de algumas ditaduras democráticos (ou ditaduras toleradas em democracia), representada no desaparecimento de algumas figuras históricas, representa ou não o fim dos ‘falsos profetas’… da política, claro!

2 comentários »

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  1. Excelente post, Silvino !

  2. Muito Obrigada, ITC.
    Continue a visitar-nos.


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