Artemisa Ferreira lança um DESEJO poético

Setembro 20, 2009 às 10:26 pm | Publicado em Cânticos e Poesia | Deixe um comentário

Acaba de sair para o mercado, pelas mãos da Corpos Editora, o primeiro livro de poesia de Artemisa Ferreira, uma jovem cabo-verdiana que se apresenta no universo poético. O livro traz um prefácio por mim escrito, que deixo aqui como aperitivo para quem pretender entrar para o universo poético da nossa amiga.

 

Desejar da Poesia a Carne do Ser da Existência

Quem nos convida para navegar por uma obra poética, automaticamente, nos convida para ler os sentimentos que enobrecem uma alma. Muitas vezes, a poesia traz ao de cima o humanismo de uma alma presa a um corpo. Uma alma que procura uma ponte entre o mundo do ser e o há-de vir, entre o homem e o além, entre a existência e a transcendência, entre a carne e o Verbo. Do Verbo se faz carne, da poesia se faz alma, da alma se faz poeta, da carne se faz existência e, no Verbo, o homem se encontra na sua dimensão eminentemente humana.

Percorrer o tracejado poético de um autor é descobrir sentimentos, seguindo as pegadas das emoções que ficam estendidas entre os estrofes. Emoções que jazem nos versos, que contam histórias de um percurso, fazem o retrato de uma existência e reconstroem o percurso sentimentalista de um poeta. Estas linhas descontínuas de sentimentos estão presentes nos poemas de Artemisa Ferreira, uma jovem autora que se lança no mundo dos livros, mas não no dos poemas, já que o seu desejo de escrever tem atravessado grande parte do seu existir enquanto pessoa. Desde muito jovem, Artemisa Ferreira percebeu que existe uma forma de viver – não melhor e nem pior do que as outras – que consiste em enformar, poeticamente, os desejos da carne e os sentimentos da alma. E assim, traçou um percurso existencial em que o Verbo consola a carne quando os sentimentos atormentam a alma. Alma mais poesia: Poeta. Sentimentos mais palavra: Poema. Verbo mais emoção: Poesia. Verbo mais Carne: Homem.

Nas poéticas de Artemisa Ferreira, encontramos um turbilhão de desejos, que acabam por enformar um conflito de sentimentos. Entre a tristeza e a alegria, encontramos o desejo de amar. Entre as certezas e as incertezas, encontramos o desejo de lutar. Entre a distância e a presença, encontramos o desejo de partir. Entre lá e cá, mora a saudade. Um sentimento que ultrapassa o simples desejo de estar com alguém ou em lugar algum, querendo, antes de mais, ser alguém ou de algum lugar. Ser no sentido de mesclar o eu com o outro para conseguir um nós; o Barlavento e o Sotavento para ter Cabo Verde; a distância e a saudade para ter a presença ausente; o país e a diáspora para ter o mundo; a existência e coexistência para ter a sociedade; a palavra e a credibilidade para ter a confiança; o eu e o ego para ter o alter; o desejo e o Verbo para ter a poetisa.

Nos poemas de Artemisa Ferreira, encontramos uma louca manifestação de amor. Um amor incondicional por um país que a viu nascer; um amor pela vida; um amor ao próximo; um amor pela carne, que se traduz no seu próprio desejo. Da vontade de partir para correr atrás de um sonho, encontramos dez ilhas, com duas mãos. Todos unidos pelo mesmo laço: unidos pelas duas mãos que fazem do cabo-verdiano um homem trabalhador. Poeticamente, Artemisa Ferreira constrói o percurso de um cabo-verdiano em movimento constante: um ser que anda de ilhas em ilhas. Chegando à diáspora, quer construir a sua própria ilha porque, na ilha nasceu, ali cresceu e na ilha quer viver. Um povo que vive com o mar: o mar que dá o sustento da família; o mar que indica o caminho da partida; o mar que simboliza a saudade; o mar que impede que se parta; um mar de contradições. Dá peixe para alimentar o corpo, mas, possibilitando a partida, deixa saudade para atormentar a alma. Proporciona belos momentos de lazer pelas praias ao sabor de frescas águas de coco, mas também oferece cenários de dúvidas e medo, querendo saber se a partida se reencontrará num regresso. Por isso, os poemas de Artemisa Ferreira procuram captar estes contrastes do mar e do mundo em que a alma e o corpo lutam para definir uma forma de existência.

Na vida e no amor, da guerra entre a alma e o corpo, Artemisa Ferreira existe. O corpo se estremece num suspiro ofegante, entre dentadas no pescoço e fôlegos sufocantes. A alma suspira… não de alívios, mas de tensão. Não estando o corpo parado, a alma acompanha-o nas suas loucuras. Na sua existência poética, Artemisa Ferreira começa a sentir que os lábios se tocam; sem pedir licença, os seus beijos são roubados; num ímpeto e sem perdão, o seu sexo é invadido; sem piedade, apodera-se do seu corpo, do seu ego, da sua alma, do seu ser. Mas, não cai num abismo. Cai, sim, num desejo profundo, que invade uma escuridão do fim do mundo para tornar húmida a noite, como as paredes do quarto.

Corpos estendidos em cima da cama, somando o calor e o desejo. De secos a molhados, uma batalha entre os corpos. Para além da húmida noite rasgada, os corpos sentiram a necessidade de ensaiar uma dança. Ele insaciável e ela ofegante, ouve-se gemidos, sente-se desejos. Gemidos que se estendiam pelo horizonte… porque eram de fúria… e de paixão. Ardente. Provocante. Uma paixão que nasceu de um olhar captado pelos olhos de lírios. O seu coração, o vento colocou no peito dele. O seu corpo, aos braços dele. O seu grito, aos ouvidos dele. E assim, Artemisa Ferreira constrói o seu DESEJO.

 

 

Silvino Lopes Évora

Investigador na Universidade do Minho.

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